Trabalhos para nada “O homem com duas cabeças”

Escultura
Mesa de madeira, escultura de gesso e placa de metal com texto gravado
Dimensões: 105x123x60cm

Nisso como em tudo o resto o meu temperamento influiu muito sobre os meus princípios, ou antes, sobre os meus hábitos, já que nunca agi obedecendo a regras ou não segui, em tudo, outras regras a não ser os meus impulsos naturais. Nunca uma mentira premeditada se aproximou do meu pensamento, nunca menti por interesse pessoal; por vezes omitia alguns factos. Mas menti muitas vezes por vergonha, para me salvar de apuros em coisas sem importância ou quando, este! Sim, este que está aqui sempre por de trás de mim, que não fala e, só me atormenta os pensamentos ao dizer aquilo que devo falar. Diz que tenho de ser assertivo! Ele não percebe! Quando se torna necessário falar e não há verdades divertidas que me venham ao espírito, conto fábulas, para não ficar mudo; ao inventar essas fábulas, porém, procuro, o mais possível que elas não sejam mentiras, isto é, que não ofendam a justiça nem a verdade que é devida, e que não sejam mais do que ficções indiferentes para toda a gente e para mim próprio. Mas é nesse momento que ele grita comigo e diz que sou ridículo. O ritmo das conversas, mais rápido que o das minhas ideias, ao forçar-me quase sempre a falar antes de pensar, sugere-me, muitas vezes, tolices e inépcias que a sua razão desaprova e o seu coração condena à medida que me saem da boca; porém, como precediam o meu próprio juízo, já não podiam ser reformuladas pelas suas censuras. De todas as reflexões, deduzo que a obrigação de veracidade que me impõe fundamenta-se mais em sentimentos de rectidão e de equidade do que na realidade das coisas, e que, na prática, parece que tenho de obedecer mais aos preceitos morais da minha consciência do que às noções abstractas do verdadeiro e do falso. Contei muitas fábulas, mas raramente menti. Seguindo esses princípios, ofereci aos outros muitas formas de me dominarem, mas jamais causei danos a quem quer que fosse, e não concedi a mim próprio vantagens superiores às que me eram devidas. Quer-me parecer que só assim é que a verdade é uma virtude. Sob qualquer outro aspecto, ela não é para nós senão uma entidade metafísica, de que não resulta nem bem nem mal. Sempre que a esterilidade da minha conversa me forçava a completá-la com ficções inocentes, ele reclamava dizendo que procedia mal, porque não se deve, para divertir os outros, envilecer-se a si próprio; e sempre que, levado pelo prazer de escrever, acrescentava a coisas reais ornamentos inventados, ainda procedia pior e dizia que enfeitar a verdade com fábulas é, na realidade, o mesmo que desfigurá-la.

Sculpture
Wood table, plaster sculpture and metal plate with engraved tex
Dimensions: 105x123x60cm

In this as in everything else, my temperament strongly influenced my principles, or rather my habits, since I never acted according to rules and never followed any rules other than my natural impulses. A premeditated lie never entered my thoughts, I never lied through personal interest; sometimes I omitted certain facts. But I lied many times out of shame, to get myself out of difficult situations in matters of no importance or when, he! yes, he that always follows me, who doesn’t speak, and who only sends my thoughts into turmoil by telling me what to say, says that I must be assertive! He doesn’t understand! When I have to talk and no amusing facts come to mind, I tell tales, so as not to remain silent. On inventing these tales, however, I try as hard as possible to make sure they are not lies, that is that they are not unjust or contrary to the truth, and that they are no more than insignificant fictions to everyone and to me myself. Yet it is at this moment that he cries out with me and tells me that I am ridiculous. The pace of conversations, faster than that of my ideas, almost always forces me to speak before thinking, and thus often suggests stupidities and nonsense to me which are rejected by his mind and condemned by his heart as soon as I utter them. However, since they preceded my own judgement, they cannot then be reformulated according to his criticisms. After much reflection, I realise that my concern for truthfulness is based more on notions of rectitude and fairness than on the true nature of things and that, in practice, it would seem that I am obliged to obey my own moral precepts rather than abstract notions of true and false. I told many tales, but I rarely lied. By following these principles, I presented others with many ways to dominate me but I never hurt anyone nor created unfair advantages for myself. It seems to me that only thus is truth a virtue. In any other guise, it is to us nothing more than a metaphysical entity, from which neither good nor bad results. Whenever I was obliged to flesh out the sterility of my discourse with innocent fictions, he complained that I was wrong, since one should not defile oneself for the entertainment of others. And whenever, carried along by the pleasure of writing, I added fictional ornaments to reality, it was worse still and he would state that embellishing truth with tales is, in reality, the same as defacing it.

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