Trabalhos para nada “O meu Criado”

Escultura
Vitrina de madeira com interior forrado e vidro acrílico com impressão de texto manuscrito, colarinhos/golas de pano, punhos
Dimensões: 154x124x22,5 cm

Nunca imaginei que o meu criado gostaria de mim. Sempre pensei, a partir do momento em que fiz dele meu criado, que me detestaria. Era um jovem desempregado que acidentalmente obtivera o principal papel num filme e a quem mais nenhum realizador propusera coisa alguma. Nesse momento percebi que ele seria a pessoa ideal para o papel que precisava, visto que dependo cada vez mais de tudo e de todos, e que queria um jovem elegante para me acompanhar para todo o lado, sobretudo nas festas sociais, onde já quase não vou, mas que me seguisse de perto em público, fingindo que não me conhecia, como um comparsa de prestidigitador e que desempenharia as funções de falar comigo quando me deixavam sozinho, ou quando precisava de me livrar de alguém, fingindo que ele era uma das pessoas mais excitantes para conhecer. A única condição para este personagem, seria não falar francês e que, portanto não percebesse nada do que eu digo quando falo ao telefone. Eu desejava preservar o que me restava de vida privada e os criados falam demais com os vizinhos e com os comerciantes. Mas já não há muita gente a quem eu fale, e ninguém a quem impedir de me compreender. Já morreram todos os meus verdadeiros amigos, o último há menos de quinze dias. Quero também que me acompanhe nas minhas viagens a Roma. Iremos os dois em classe económica, encontram-se pessoas mais descontraídas do que em primeira. Tenho um certo jeito para enganar as pessoas. O meu criado e eu, passamos quase despercebidos, temos o ar de dois jovens como quaisquer outros, de dois irmãos. Tenho oitenta anos, mas quando viajo uso sempre uns ténis Nike acolchoados, jeans apertados, blusões de couro, os meus Ray-Ban escondendo as patas de galinha e o meu boné esconde as marcas do bisturi dos liftings, aos quais me submeto, por uma questão moral, de cinco em cinco anos, desde os quarenta; apagar as marcas fica mais caro do que a própria operação, e como de qualquer maneira é necessário desfazer tudo outra vez... Tenho a sensação de viver uma nova juventude. Ouço no walkman as mesmas músicas que o meu criado, que não aprecio de modo nenhum, mastigo as mesmas pastilhas elásticas, cujos sabores me enojam. O meu criado é uma pérola. Nunca, por meio de um olhar para se desculpar junto de uma rapariga admirada com o par que formamos, ou de um verdadeiro jovem que procura a sua cumplicidade, ele trairia a minha verdadeira idade, que não ignora, pois é ele que me descalça, que me ergue discretamente dos maples muito fundos onde por vezes tenho de me sentar, que me ajuda a enfiar as mangas do meu blusão, demasiado pesado para eu o fazer sozinho, e que me dá injecções nos meus membros descarnados onde já quase não há sítio onde picar. É uma alma simples, mas tortuosa, pois já está ao meu serviço há quatro anos. Tentei impor uma farda, mas foi ele que acabou por me impor uma a mim. Hesitei, para ele, entre vários tipos de vestuário: gostaria muito de o ver com um libré de gola redonda, vermelha ou preta, de grande botões dourados ou prateados, como as que usam os bagageiros do Train Bleu, denunciando a curva dos rins sobre o traseiro moldado pelo tergal. Ele recusou, e eu próprio abandonei essa ideia. Arriscava-me a ficar sem criado, mas pior que isso seria deixar de enganar os outros, que morrem de inveja cada vez que nos vêem juntos e, comentam acerca da sorte que eu tenho. Por isso, vou continuar a vestir-me como ele de forma a passar despercebido perante os outros.

Sculpture
Wooden showcase with the interior lined with fabric and acrylic glass handwriting text, fabric white-collar and cuffs
Dimensions: 154x124x22, 5 cm

I never expected my servant to like me. I always thought he would hate me as soon as I employed him as my servant. He was an unemployed young man, who had been given the lead role in a film by chance, and who had never again been approached by a director. That was when I realised that he would be perfectly suited to the post I had in mind, since I have become increasingly dependent for everything and on everyone, and I wanted an elegant young man to go all over the place with me, above all to parties, which I barely attend, but who would follow me closely in public, pretending not to know me, like a magician’s accomplice and whose duties would be to talk to me when I was left alone, or when I needed to get away from someone, by pretending that he was one of the most exciting people you could meet. My only stipulation for this individual would be that he didn’t speak French, so that he wouldn’t understand anything I said when I talked on the telephone. I wanted to preserve what I had left of a private life, and servants talk too much to neighbours and shopkeepers. But there aren’t many people I still talk to, and no one to prevent from understanding me. All my real friends have died, the last of them less than a fortnight ago. I also want him to accompany me on my trips to Rome. The two of us will go in economy class, you meet a more laid back type of person there than in first class. I have a certain knack of fooling people. My servant and I go almost unnoticed, we seem like just a couple of ordinary youngsters, like two brothers. I am eighty but when I travel I always wear a pair of Nike trainers, tight jeans, leather jackets, my Ray-Bans hiding my crow’s feet and my cap hiding the scalpel marks left by the facelifts that I have subjected myself to, for moral reasons, every five years since I turned forty. Removing the marks is more expensive than the operation itself, and since anyway you have to start all over again... I feel like I’m experiencing a new youth. On my walkman I listen to the same music as my servant, which I don’t like at all, and I chew the same gum, whose flavours make me feel sick. My servant is a gem. He would never betray my real age by throwing an apologetic look at a young girl surprised to see a couple such as us, or at a genuinely young man seeking his complicity, despite the fact that he knows it, since he takes my shoes off and discreetly helps me up out of the very low armchairs that I sometimes have to sit in, and helps me to slip on the sleeves of my jacket, which are too heavy for me to do alone. And gives me injections in my wasted limbs where there is hardly any place left to puncture. He is a simple soul, yet also cunning, since he has now been in my service for four years. I tried to impose a uniform, yet it was he who ended up imposing one on me. For him, I wavered between various styles of dress: I would really like to see him with wearing a uniform with a mandarin collar, in red or black with big gold or silver buttons, like those used by the Train Bleu baggage handlers, revealing the curve of his lower back above his fabric clad buttocks. He refused, and I abandoned the idea. I risked being left without a servant, but it would have been worse to no longer deceive those people who die of envy every time they see us together, and comment on my good fortune. Which is why I will continue to dress like him in order to pass unnoticed by others.

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