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Escultura
Vitrina de madeira e metal com impressão de texto manuscrito, sapatos femeninos.
Dimensões: 180x100x70 cm
As faculdades da alma seguem a mistura do corpo, também chamado a dependência que a alma tem do corpo. O meu corpo tem múltiplas extensões, não no sentido literal da palavra, mas na forma que eu própria as crio e manipulo de modo a construir uma verdadeira ou mesmo, extraordinária impressão nos outros.
A coragem e a inteligência dependem de sangue quente, espesso e puro e as potências ou faculdades da alma dependem da natureza do corpo, corpo esse que ao ser bem nutrido dá alegria a satisfação ao meu interior. É esse o meu destino alimentar, não só a minha alma, como a dos outros. Sempre o soube, desde pequena. Nunca o disse a ninguém, eles também nunca repararam no que eu lhes dava e muito menos em mim. Era pequena, ainda o sou! Tenho somente um metro e cinquenta e três de altura. Apesar deste tamanho ridículo e quase ofensivo, sou bastante proporcionada o que não destruiu por completo a minha auto-confiança. Consegui alguns namorados, cheguei mesmo a casar, nunca tive filhos, porque não os queria. Continuo sem saber para que é que servem as crianças. Por outro lado armadilhei-me de um conjunto de artifícios para conseguir manter-me ao lado do resto da sociedade e não ser mais uma excluída ou discriminada, sobretudo por um dado absolutamente ridículo, o da minha altura.
A minha inteligência não era das mais brilhantes. Não possuía nenhum atributo natural para qualquer tipo de actividade artística, também nunca fui especialmente bonita apesar de ser bastante proporcionada, portanto resolvi que, com os meios naturais, me iria artificializar de forma a melhorar-me aos olhos dos outros. Passei a usar sapatos de saltos altos.
Dei por mim a caminhar num plano elevado. Senti-me na posição correcta, onde o corpo atingia a sua verdadeira dimensão e a alma se expande. Passei a ter mais coragem, a ser mais inteligente. Passei a ter sangue quente. Era só isso que eu precisava para que os outros reparassem em mim, passassem a respeitar-me. Costuma dizer-se nesta terra que é necessário ir para o estrangeiro para que os outros nos respeitem. Eu nunca saí daqui, mas deve ser por ter sapatos de todas as nacionalidades que eles passaram a ouvir-me. Os meus preferidos são uns do tipo... de andar por casa, são uns “Divine”, são todos dourados com pêlo rosa na frente. Comprei-os com a minha amiga Lurdes, que me disse que eu devia estar louca, pois achava-os verdadeiramente pirosos, mas eles representavam exactamente o fetiche que andava à procura: sentir-me uma Star Holywoodesca, e não mais uma qualquer que chega a casa depois de um dia de trabalho e põe uns sapatos confortáveis porque já não aguenta com os pés. Isso são tudo fantasias da cabeça das pessoas. Penso que a isto chamam a ligação do corpo à alma, ou melhor, é do corpo que a alma se alimenta, pois ao contrário ele começava imediatamente a definhar e a perder qualidades.
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Sculpture
Wooden showcase and metal, glass handwriting text, female shoes
Dimensions: 180x100x70 cm
The faculties of the soul obey the composition of the body, a state also described as the soul’s dependence on the body. My body has many extensions, not in the literal sense of the word, but in the way that I create and manipulate in order to construct a real, or even, extraordinary impression on others.
To be courageous and intelligent, one must have hot, thick, pure blood and the strength and faculties of the soul depend on the state of the body, which when it is well nourished provides me with inner happiness and satisfaction. That is my destiny, to nourish not only my soul but that of others, as I have known ever since I was young. I never told anyone and neither did anyone take any notice of what I gave to them, and much less of me. I was short, I still am! I am only just over five foot tall, though in spite of this ridiculous and almost offensive stature, I am quite well proportioned which allows me to maintain a measure of self-esteem. I had a number of boyfriends, I even married, I never had children, because I didn’t want them, I still don’t know what the point of them is. However, I rigged myself up with a set of tricks in order to secure myself a place alongside the rest of society and to avoid further exclusion or discrimination, particularly for the absolutely ridiculous reason of my height.
I didn’t have the greatest of minds. I had no natural talent for any kind of artistic activity and neither was I particularly pretty, in spite of being well-proportioned, so I decided that, by natural means, I would modify myself in order to improve my image in others’ eyes. I began to use high heels.
I started to walk on a higher plane. I felt in the correct position, in which the body reaches its true dimension and the soul expands. I began to be braver, more intelligent. I developed hot blood. That was all I needed for others to notice me, to respect me. It’s commonly said in this country that one must go abroad in order to be respected. I never left here, yet it must be because I had shoes of every nationality that they began to take notice of me. My favourites are some which are kind of... for walking around at home, they are “Divine”, all gold with pink fur at the front. I bought them with my friend Lurdes, who said to me I must be mad, since she thought they were really tacky, but they represented exactly the kind of fetish I was looking for. I felt like a Hollywood star, and not like an ordinary woman who comes home after a day at work and puts on some comfortable shoes because her feet are killing her. These are all fantasies from people’s minds, I think they call this the connection between body and soul, meaning that the soul is fed by the body. Because otherwise it would soon start to waste away and lose its characteristics.
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