Trabalhos para nada “Sem Qualidades”

Instalação
Instalação: Guarda-roupa de madeira, vidro acrílico com impressão de texto manuscrito, roupas penduradas
Dimensões: 186x166x61cm

Durante anos chamaram-me uma pessoa sensível, a minha sensibilidade era, constantemente agitada por meditações, depressões, montes e vales; nessa altura julgava ver tudo de modo diferente dos outros; podia impressionar-me coisas a que esses eram indiferentes, e quando os outros lançavam mão de certas coisas sem pensarem, para mim o simples acto de mover o braço era uma aventura espiritual, ou narcísica paralisia. Nunca era indiferente, mas via em tudo uma felicidade ou uma fatalidade, tendo, assim, sempre oportunidade para pensar alguma coisa de excitante. Pessoas como eu exercem sobre os outros uma atracção pouco comum, porque o empenho moral em que me encontram sempre se comunica aos outros; nas minhas conversas tudo tem um significado pessoal, e como na relação com elas nos podemos ocupar constantemente de nós própios, proporcionam um prazer que, de outro modo, só se consegue ter pagando a um psiquiatra ou a um psicólogo, ainda por cima com a diferença de que nesse caso nos sentimos doentes, enquanto que eu ajudava as pessoas, por razões que elas até agora não conseguem descortinar, a sentirem-se muito importantes. Esta minha qualidade, que me levava a ser capaz de facilitar aos outros a contemplação espiritual de si próprios, tinha também conquistado todos aqueles que se diziam cépticos acerca de temas chamados misteriosos, ou melhor, a doença do eu. Hoje, agora, rio-me de mim mesma! É-me cada vez mais estranho estar e conversar com as pessoas, sobretudo quando elas próprias, aquelas com quem falei durante todo aquele tempo, acerca daqueles temas, adoptaram o mesmo discurso ou aqueles temas para sua própria verdade, sendo que grande parte delas não sabem, ou mesmo, não percebem do que estão a falar. Eu própria por vezes também não sabia, mas era-me natural, era como uma intuição, que se repetia, e me obrigava a falar, a dizer tudo aquilo àquelas pessoas. Apesar disso, mal chegava a casa, cheia de planos e impressões, talvez mais amadurecidos e originais que nunca, produzia-se em mim uma mudança desmoralizadora. Bastava-me colocar uma folha de papel sobre a secretária: era sinal de uma terrível fuga ao coração. Mantinha a cabeça clara e o projecto como que pairava numa atmosfera límpida, transparente, desdobrava-se mesmo em dois ou mais planos que disputavam entre si a prioridade; mas era como se a ligação da cabeça aos primeiros impulsos exigidos para a execução estivessem cortados. Eu era incapaz de mover um dedo para o que fosse. Não me levantava do lugar onde estava sentada, e as ideias desfaziam-se de encontro à tarefa que se impusera como a neve que se derrete logo que cai no chão. Tudo me era difícil, tudo se tornou arrepiante, desconfortável e denunciador de uma sequência de acontecimentos que me levaram a um estado de incapacidade de lidar comigo mesma, criando assim uma série de alergias a tudo o que comia, tocava, chegando mesmo ao ponto extremo do vestuário que usava, sendo o melhor exemplo a incapacidade de usar roupas com cor. Tudo parecia uma maldição, uma verdadeira catástrofe que se me abatia em todos os sentidos. Tive então de mudar tudo aquilo que a minha filosofia anterior me obrigava, voltando-me para uma análise profundamente (profunda) e consciente da realidade. Sendo que cedo me apercebi que tudo aquilo a que chamava qualidades eram agora não qualidades ou sendo mais radical, profundos defeitos, o que me deixou num estado de angústia profunda aliada a uma vergonha de tudo o que me rodeava. Agora só me visto de branco de forma a purificar-me de todas as acções e teorias que proferi no passado, para além das alergias cutâneas que persistem e que, com o branco são mais raras. Este meu novo estado permite-me atingir um sentido de alienação que me traz as vantagens de nunca me lembrar quem realmente sou e muito menos do que digo, pois agora sinto-me muito mais pacificada. A minha consciência dá e tira, porque a tenho em grande quantidade. Estou feliz, purificada, tranquila e bem comigo mesma, apesar de não conseguir falar com os outros e olhar para a cara deles.

Installation
Wooden wardrobe, acrylic glass with handwriting text, hanging clothes
Dimensions: 186x166x61cm

For years I was known as a sensitive person, my sensibility was constantly shaken by periods of meditation, depression, peaks and troughs. At this time I thought I saw everything differently to everyone else; things that others were indifferent to had an impact on me, and whilst others touched certain things without thinking, for me the simple act of moving my arm was a spiritual adventure, or narcissistic paralysis. I was never indifferent, seeing happiness or tragedy in everything, so there were constant opportunities to find excitement in things. People like me exert an unusual hold over other people, since they always perceive what they regard as my moral diligence. When I talk, everything has a personal significance and, since on these occasions we can talk of nothing but ourselves, this is a source of pleasure which could otherwise only be achieved by paying a psychiatrist or psychologist – with the additional difference that in those circumstances we feel that we are unwell, whilst I helped people, for reasons which even now they cannot identify, to feel very important. This quality of mine, which enabled me to assist others in contemplating their own spirituality, also won over all those who claimed to be sceptical with respect to so-called mysterious matters, or rather, the suffering of the self. These days, I laugh at myself! I find it increasingly odd to talk to and be with people, above all when they, the same people I conversed with all that time, on those subjects, have adopted the same discourse or themes as their own truth, since most of them don’t know, or even understand what they are talking about. At times, I myself didn’t know, but it came naturally to me, it was like a recurrent intuition, which obliged me to talk, to say all those things, to those people. In spite of that, I would scarcely have arrived at home, full of plans and impressions, which were perhaps more considered and original than ever, when a demoralising change would come over me. It was enough for me to place a sheet of paper on the desk: it was the sign of a terrible change of heart. My head remained clear and, as if it hovered in a limpid, transparent atmosphere, the project unfolded itself into two or more planes which jostled amongst themselves for priority, but it was as if the links between my brain and the first impulses needed to carry it out had been severed. I was incapable of moving a finger to do anything. I remained seated, and the ideas dissipated on contact with the imminent task like snow that melts after falling on the ground. Everything was difficult for me, everything became terrible, uncomfortable and an accusatory reminder of a sequence of events, leading me to a state in which I was incapable of dealing with myself, thus creating a kind of allergy to everything I ate, touched, even affecting the way I dressed – the clearest example being an inability to wear coloured clothes. Everything seemed like a curse, a real catastrophe which afflicted my every sense. So I needed to change everything dictated to me by my previous philosophy, returning to a profoundly (profound) and conscious analysis of reality. I quickly realised that everything I had referred to as qualities were now non-qualities or, more radically, profound defects, which left me in a state of profound anguish combined with shame about everything around me. Now I only wear white as a way of cleansing myself of all the actions and theories I proffered in the past, as well as because of my persistent skin allergies, which are less frequently caused by white. This new state of mine allows me to achieve a sense of alienation which has the advantage for me of preventing me from ever remembering who I am and much less what I say, since I now feel much more at ease. My conscience is generous enough to allow me to give and take. I am happy, cleansed, calm and I feel good about myself, in spite of not being able to talk to others nor look them in the eye.

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